Desvio de formação e gosto, tenho uma atração fatal: a de embarcar em canoas furadas. Detesto chutar cachorro atropelado e, se não dou razão aos crucificados, tenho simpatia e respeito por eles.
É o caso de Duda de Mendonça, apontado como um sanguinário, um Jack Estripador, um bandoleiro do asfalto, formador de quadrilha como Al Capone, um Fernandinho Beira-Mar. Vamos com calma.
Não aprecio o seu amor pelas rinhas de galo, como não aprecio o boxe, as touradas e os rodeios, onde os promotores põem mostarda no intestino dos cavalos para irritá-los e obter espetáculos mais emocionantes.
Se dependesse de mim, tirante aqueles dias das mulheres, nada que derrame sangue mereceria ser encarado com naturalidade. Nem mesmo as corridas de cavalo, que são incruentas, mas não deixam de explorar animais - e a sociedade que os protege nem está aí para protestar contra os confinamentos, a vida artificial que lhes é imposta.
Não abençôo Duda pelo gosto, mas daí a considerá-lo um criminoso, um tarado, vai uma infinita distância. Uma luta de boxe, esporte considerado "nobre" pelos entendidos, freqüentemente derrama sangue, causa mortes e aleijões e requer uma disciplina, um aprendizado técnico em que a finalidade é colocar o adversário estendido no chão, sem sentidos, momentaneamente ou para sempre.
Bem, a briga de galos é ilegal. Que Duda responda, mas dentro dos limites, pela infração à lei. Lei menor, que preocupou um Jânio Quadros, que também não gostava de concurso de miss. Lei garantida por mais de 40 elementos da Polícia Federal, a mesma que nem está aí para impedir a entrada de armas e de drogas produzidas lá fora e que aqui entram aos borbotões,
A eficiência com que a PF atua em casos que pretendem desmoralizar candidatos em época de eleição, além de rotineira, torna-se suspeita de estar sendo manobrada por interesses partidários.
Folha de São Paulo (São Paulo) 30/10/2004